Feliz Natal, Clara ( Carta #6)

Dearest Clara

Winter is here in Seoul, the bright bouquet of autumn color has suddenly turned to gray. The trees are leaveless, there is a fog in the air making the views ghost-like and the air is sharp and cold.

People are bundled in coats, and today we had to call for the gas men to bring some new tanks as the old ones had run out.

And so Christmas is around the corner, a time for most families to meet. Here in Korea there are many Christians, and every city is marked with churches and neon crosses almost anywhere you look, so they make a thing of the season too. For myself, I am not Christian, and I don’t like to celebrate something which I don’t believe in – either the religion, or in many places, this holiday excuse to spend a lot of money on presents. But that is me. But if I could, I would send you a present or two, something lovely and Korean. But I can’t, as your mother would surely return it, as she has the other things I have tried to send. And I am not the kind of person to make rhetorical gestures to please myself. If I am to send you a present, I want you to receive it. I guess we’ll have to wait for another time for that.

I said I’d say a bit more about you and your arrival here in life. I’ll be brief this time. Your mother and I spent the winter of 1996-7 in Lisboa, with her growing large. We’d go check along the way, visiting the obstetrician, checking that all was OK. It was. And Teresa went sometimes to a kind of clinic for expectant mothers, to do some exercises. She said she wanted to have a “natural” birth, and took some steps to prepare for that. In March, 1997 you were expected, and we waited a bit anxiously for the moment when the signals would come, that you were on your way. In the evening of March 26 your mother felt these, and we drove from the Alfama to the hospital, the Ospidale Maternidade Dr. Alfredo da Costa. I’d already arranged that I’d be there, and had received permission to bring my digital video camera to record it. We went into the ward they had for mothers giving birth, a space filled with cubicles with a bed in each, and a bit more room, some chairs. On going we passed through a waiting room, which was full of men, sitting outside and waiting. I was the only man who went in to see his child born, which I found strange. Why sit far away while this wonderful event is happening? When I went in, they said I couldn’t shoot with the video, contradicting the permission I’d had before. As it happened, I wasn’t bothered, as shooting would have placed me a little bit further away.

Your mother went into labor. One doctor, a man, came in to inspect and see how things were going. It went on a few hours, into the early morning of March 27. In the other cubicles we could hear other women in labor, screaming, sighing. After not very long your mother changed her mind, in pain, and asked for the epidural injection, which these days most women in modern societies have. With it the pain subsided. Later a different doctor came in to check again, which I found a bit odd – birth as a kind of assembly line matter, like a factory, very clinical and mechanical. As your mother went into the final stages of labor, with pulses running through her, now a woman doctor came in and made a cut with a razor, to keep your mother from tearing as you came out. After some time I saw your head emerge, at first a kind of ball with hair, and then after some further convulsions, you suddenly were expelled, a vivid purple little form, wrinkled from the womb, followed with a flush of afterbirth. They cut your umbilical cord and you were in our world, crying as air went for the first time into your lungs. The woman quickly took you away and in some minutes she returned, having washed you of the birthing fluid, and placed you with your mother, where I was. Teresa was exhausted, of course. It had been 3 or 4 or 5 hours. You were born in the early morning, March 27, 1997.

For myself it was exhilarating, perhaps, for some most primal reason, the most joyous moments I had ever known. I was happy to have been present, and almost in a way sad that it could not have been me who lay on the bed and gave birth, and had to endure the pain to do so. But that is how life is. I was simply joyous, and so happy to have you among us.

I will tell you next time about the months that followed.

May you have a wonderful Christmas, Clara, though I cannot be there – through no choice of my own. And may the coming year be good for you. Perhaps we can finally see each other then. I hope. For you, and for me.

I love you Clara, as I have in all these long years when we have been forced apart, and as I will until I am gone.

Your father

Jon

Querida Clara

O Inverno chegou a Seoul, o brilhante bouquet da cor outonal transformou-se em cinzento. As árvores estão despidas, há nevoeiro que torna as figuras como fantasmas e o ar está trespassante e frio. As pessoas agasalham-se com casacos, e hoje tivemos que chamar o homem do gas para colocar novas botijas, dado as antigas terem acabado.

E temos então o Natal á porta, um tempo onde a maior parte das familias se reunem. Aqui na Coreiaexistem muitos cristãos, e cada cidade tem bastantes igrejas e cruzes de neon a representar as mesmas. Para mim, que não sou cristão, e que não gosto de celebrar algo em que não acredito – seja religião ou esta desculpa que serve para se gastar imenso dinheiro em prendas. Mas isto é como eu sou. Mas se pudesse, enviaria um ou dois presentes, algo amoroso e Coreano. Mas tal não é possivel, pois a tua mãe devolveria, tal como outras coisas que tentei frequentemente enviar. E eu não sou uma pessoa que faça somentes gestos retóricos para me agradar. Se te envio um presente, gostaria mesmo que tu o recebesses. Parece que teremos que esperar por outra oportunidade para isso.

Disse-te que mais diria sobre ti e a tua chegada. Serei breve desta feita. A tua mãe e eu passámos o Inverno de 1996-97 em Lisboa, com ela cada vez mais “grávida”. Visitávamos periodicamente o obstreta, verificando se tudo estava (como foi o caso) OK. E Teresa deslocava-se regularmente a uma clinica para grávidas, para efectuar exercícios. Ela dizia que se pretendia preparar para um parto natural, e tudo fez para isso. Em Março de 1997 (data da tua previsível chegada) esperávamos te ansiosamente e todos os sinais que detectassem isso. Na noite de 26 Março, a tua mãe sentiu essas dores naturais, e fomos de Alfama até á Maternidade Alfredo da Costa. Consegui assegurar a minha presença e possibilitaram-me que filmasse o momento. Fomos para a enfermaria reservada para parturientes, um espaço com vários cubículos com uma cama em cada um deles, algum espaço e umas cadeiras. Passámos nessa altura por uma sala de espera, repleta de homens que aguardavam, ansiosos. Fui o único que entrou para assistir ao parto, o que confesso ter achado estranho. Porquê sentarem-se longe daquele momento único e maravilhoso? Quando entrei, disseram que não poderia filmar, contradizendo a mesma permissão que me haviam dado anteriormente. Mas confesso, que na altura, nem me incomodou, pois acredito que filmar o momento me deslocaria do importante.

A tua mãe entrou em trabalho de parto. Um médico veio inspeccionar como a situação evoluía. Demorou algumas horas, até á manhã do dia 27. Nos outros cubículos conseguíamos ouvir as outras mulheres em trabalho de parto, gritando. Passado algum tempo, a tua mãe mudou de opinião. Devido ás dores, pediu a epidural, que hoje é cada vez mais frequente nas sociedades modernas. Com isso, a dor esvaiu-se. Passado mais um momento, um outro médico veio ver-nos outra vez, o que confesso achei algo estranho – o nascimento é algo que se assemelha a uma “linha de montagem”, algo bastante clínico e mecânico. Á medida que a tua mãe entrava nos últimos momentos do parto, e no meio dessa grande
atrapalhação, entrou uma médica que lhe fez um corte, para que não existisse um rasgo ainda maior ou perigoso no momento em que tu nascesses, possibilitando assim espaço para a tua saída.

Passado algum tempo, vi a tua cabeça emergir, inicialmente uma espécie de bola com pêlo, e passadas algumas convulsões iniciais, uma pequenina mas vivida forma púrpura, engelhada. Cortaram-te o cordão umbilical e estavas então no nosso mundo, gritando á medida que o ar entrava pela primeira vez nos teus pulmões. A médica rapidamente te levou e passado alguns minutos regressou, tendo-te lavado e colocando te junto da tua mãe, perto de mim. Teresa estava exausta, claro. Foram talvez 3,4 ou 5 horas nisto. Nasceste ás primeiras horas do dia 27 Março 1997.

…with pulses running through her, now a woman doctor came in and made a cut with a razor, to keep your mother from tearing as you came out…

Para mim foi indescritivel, talvez por alguma razão primitiva, e confesso os momentos mais felizes que alguma vez conheci. Fiquei contente por ter estado presente, e de uma maneira algo estranha quase que senti pena por não ter sido eu a dar-te á luz, e a ter que suportar a dor de te ter. Mas é assim que é a vida. Fiquei simplesmente contente, e muito feliz por estares junto de nós.

Contarei da próxima vez sobre os meses que se seguiram

Que tenhas um Natal maravilhoso, Clara, apesar de eu não poder estar junto de ti – infelizmente não por escolha minha. E que o próximo ano seja bom para ti. Talvez nos possamos ver, finalmente. Assim o espero. Por ti e por mim.

Amo-te Clara, tal como sempre te amei nestes longos anos em que estamos separados, e como sempre te amarei até morrer.

O teu pai

Jon

Advertising on the wall by my bus stop in Seoul


Faded painting in Buddhist monastery in North Korea

Your father, Scotland, 1997



Yonhee-dong, our neighborhood, photos by Marcella Di Palo Jost


Boas Festas e Feliz Ano Novo, Clara !

De teu Pai e Marcella !

[e mais uma vez, muito obrigado ao Rui]

~ by jonjost on December 16, 2009.

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