Letter #4 para Clara

CLARA FACEBOOKClara Villaverde Cabral Jost

September 20 2009

Dearest Clara,

In the past week, a little by accident, I found your Facebook page. And a newer picture, one which I suppose you chose to use. It’s above, and seems to me not a picture of a happy 12 year old young girl. Sadly, I think I understand only too well.

I sent you a note, Facebook style, to “be friends” but I didn’t get an answer back. I imagine your mother, Teresa, has her hands on your Facebook, and many other things. I also asked her to be “a friend” but again, she did not answer. I am sorry for that.

I am in Seoul, Korea, now, with another year of teaching ahead. And working on other things – editing a few older films, including the one about you, Piccoli Miracoli. It’s on my computer screen now. It’s not easy for me to work on it – images of you long ago, a happy child and beautiful, and memories of a joyous time in my life and yours. I’d like to think you are happy now, but the little evidence I have suggests another story.

So let me continue now with the story of myself and your mother and you.

You were conceived in summer of 1996, perhaps in Scotland, or perhaps in Cabanas, or somewhere else in Portugal. As I wrote, it was in Cabanas where your mother bought a little home pregnancy test. I remember the pharmacy well. And I remember her doing the test, and our agreement – let’s go ahead. I was fifty-three years old then, rather late for being a father, but I wanted it and so did your mother. We went ahead. You would be born 9 months later, March 27, 1997.

We moved then to Lisboa, at the end of the summer. In Cabanas I had spent some of each day shooting in new digital video.   In Lisboa I continued, making a portrait of old Lisboa.  Your mother’s film, which had been scheduled to be shot in autumn, was delayed owing to your impending arrival.   We lived in a place in the Alfama, a former palace, of which we – through the production company – rented a small part. It was simple and nice, and had a lovely little back yard enclosed by a high wall. As we waited for you, I began to paint in oils there – earlier I had begun in water colors and pastels. In my mind and heart, I feel the two go together, part of a bigger learning process for me – the coming of your life, and my learning from the work of painting, and also working in digital video, which is very different from film. You will see this in Piccoli Miracoli and other things.

In this time your mother was working on Os Mutantes, her third film.  I helped in finding some places to film, and when she was selecting actors I gave suggestions.   At the same time I was shooting in the area we lived, making a portrait of a part of Lisboa that I am only now editing and I was editing a film shot in Cabanas, Nas Correntes de Luz da Ria Formosa.

As we waited, we went periodically to a clinic to have ecographs made, and we could see you growing.  I don’t recall just when, but on one of these visits we were told it would be a girl.  I was happy to hear that as I guess I had a little bias, and preferred a girl.  And later there came you, a very special girl for me.  And somewhere in this time your mother and I chose your name, Clara.   If I recall correctly – and it could be I don’t – it was originally my idea, this name.  I thought it was nice name – clarity, clearness, light.  And I think somewhere far back, in my own family – your own family – there was once another Clara Jost.

In the next letter I’ll describe some more.

Meantime it has now been a full eight years since I have seen you, since 2001.  The last I actually saw you, and you saw me, was in a police station in Trastevere, Rome – where you lived.  You were sitting on your mother’s lap, crying, and she was harshly telling you something, I don’t really know what.  I was crying too.  The authorities, against my pleading, had given you over to your mother, under the orders of the court to remain in Italy for a custody hearing.  I told them if they let her have you, she, and you, would be gone in a day.  They said, “Oh, no, we have police at the border and…”   But there are no borders in Europe any more as I told them, and as I predicted, you were gone in a day, kidnapped – for that is what it is – for the second time by your mother.  She’d taken you the first time on Nov 1, 2000, from your school in Rome.

In these eight years I tried to contact you, to send you some things, but they were returned, rejected I presume by your mother.  This is, I had sadly learned, somewhat normal for some parents who take their children and do what they can to keep the other parent from sharing in their own child’s life.   The name for this is a bit complicated – Parental Alienation Syndrome.  Later on you can read about it on the internet.  This is what has happened to you.

Below I will post some pictures of the things I have mentioned here.

I hope dearest Clara you are well, and that you are doing well in school.  I don’t know if you still study English or not – I know almost nothing of you – but I hope so, for your sake.  When you were little you spoke English and Portuguese and Italian, all equally well.

Be well, Clara.  I love you and I wait to see you when it is possible.

Your father

Jon

Clara’s face, November 1996

20 Setembro 2009

Querida Clara

Na passada semana, um pouco por acidente, descobri a tua página no Facebook. E uma nova fotografia, uma que suponho que tu tivesses escolhido. Essa fotografia não me parece a imagem de uma jovem de 12 anos feliz. Infelizmente, penso saber o porquê.

Enviei-te uma nota, ao estilo do Facebook, para sermos amigos, mas ainda não recebi qualquer resposta. Imagino que a tua mãe, Teresa, tenha as suas mãos no teu Facebook, bem como em muitas outras coisas. Também lhe enviei um pedido de “amizade” ao qual não respondeu. Lamento por isso.

Estou agora em Seoul, com mais um ano de ensino pela frente. E trabalho também em outras coisas – edito alguns filmes antigos, incluindo um sobre ti, Piccoli Miracoli. Está no ecran do meu computador neste preciso momento. Não me é fácil trabalhar nele – as tuas imagens de há muito, uma criança alegre e linda, e memórias de um tempo feliz nas nossas vidas. Quero pensar que sejas feliz agora, mas as pequenas evidências que vejo levam-me a pensar o contrário.

Vou continuar a contar-te a nossa história: eu, a tua mãe e tu.

Foste concebida no Verão de 1996, talvez na Escócia, ou em Cabanas, no Algarve, ou noutro local de Portugal. Como te escrevi, foi em Cabanas que a tua mãe comprou aquele pequeno teste de gravidez. Recordo-me bem da farmácia. E recordo-me dela efectuar o teste e do nosso acordo – vamos em frente. Tinha cinquenta e três anos na altura, idade algo tardia para ser pai, mas nós os dois concordámos. Seguimos em frente. Nascerias 9 meses depois, 27 Março de 1997.

Mudei-me então para Lisboa, no fim desse Verão. Em Cabanas passei cada dia filmando em video digital. Em Lisboa, continuei, fazendo um retrato de zonas da velha Lisboa. O filme da tua mãe, que estava agendado para ser filmado no Verão, foi sendo adiado devido à gravidez. Vivemos num local perto de Alfama, um antigo palacete, no qual – através da produtora – pagávamos uma pequena renda. Era simples e simpático, e tinhamos um pátio agradavel. Comecei a pintar em óleo – anteriormente em aguarelas e pastel. Na minha mente e no meu coração, senti que os dois, em conjunto, faziam parte de um processo maior de aprendizagem para mim – o teu nascimento, e o meu conhecimento da pintura, e também do trabalho em video digital, que é bastante diferente do filme “tradicional”. Verás isto em Piccoli Miracoli e em outras coisas.

Nesta altura a tua mãe trabalhava em Os Mutantes, o seu terceiro filme. Auxiliei em procurar alguns locais de filmagem, e quando ela fazia castings, dava algumas sugestões. Ao mesmo tempo eu filmava na área em que vivíamos, fazendo um retrato de Lisboa, que apenas agora edito, enquanto edito também um filme feito em Cabanas: Nas correntes de Luz da Ria Formosa.

Enquanto esperávamos, acompanhava periodicamente a tua mãe à clinica onde fazia as ecografias e víamos o teu crescimento. Não me lembro bem quando, mas numa dessas visitas, foi-nos dito que seria uma menina. Fiquei contente, pois também creio que tinha essa ideia, e “preferia” uma menina. Depois vieste tu, uma menina muito especial. E então, a tua mãe e eu escolhemos o teu nome, Clara. Se me lembro correctamente – e posso enganar-me – creio ter sido minha ideia. Pensei ser um bonito nome – claridade, luz. E penso que algures, já há muito tempo, na minha familia – na tua familia – houve também uma Clara Jost.

Na próxima carta, contarei mais.

Entretanto, passaram-se oito anos, desde que te vi, em 2001. Da ultima vez que nos vimos, foi numa esquadra de policia em Trastevere em Roma, onde vivias. Estavas ao colo de tua mãe, a chorar, e ela dizia-te algo que não me recordo. Eu também chorava. As autoridades, contra o que eu pedi, entregaram-te à tua mãe, isto apesar das ordens judiciais para permanecer em Itália para uma audiência judicial sobre a tua custódia. Disse-lhes que se te entregassem a tua mãe, partiriam um dia depois. Responderam “que não, temos policias nas fronteiras e…”. Mas a Europa comunitária já não tem fronteiras, como lhes disse, e tal como previ, desapareceste em um dia, sequestrada – pois foi isso que sucedeu – pela segunda vez, por tua mãe. Levou-te da primeira vez, da tua escola, em Roma, em 1 Novembro de 2000.

Nestes oito anos tentei contactar-te, enviar-te coisas, mas foi tudo devolvido, rejeitado, presumo, por tua mãe. Isto é normal, aprendi infelizmente, em pais que levam os seus filhos e que fazem o que podem para impedir que o outro partilhe a vida da sua criança. O nome é algo complicado – Sindrome alienação parental. Poderás ler sobre isso mais tarde na Internet. Isto foi o que te sucedeu.

Colocarei também aqui neste espaço algumas fotografias de factos que mencionei.

Espero, minha querida Clara, que estejas bem e que faças o melhor na escola. Não faço ideia se ainda estudas Inglês – nada sei sobre ti, de facto – mas espero que sim. Quando eras pequenina, falavas Inglês, Português e Italiano, todos bem e da mesma forma.

Fica bem, Clara. Amo-te e espero ver-te quando possivel.

O teu pai.

Jon

JART ASWCGEM3Watercolor, 1997, done at Largo do Outeirinho de’Amendoa, Lisboasketch15 CRPD TERESA JOANNA comp(2)Joana and Teresa, sometime around 1996-7LUZ man clamming2

LUZ man with branches

LUZ beach boy

LUZ hands netting

LUZ blue boatJPGCabanas, summer 1996, from Nas Correntes de Luz da Ria Formosa

From a diary note 1996.

 

After several weeks of waiting for Teresa’s period, and then being convinced she was pregnant, on July 15th, she did an at home test: pee’d on an expensive little plastic doo-dad, impregnated itself with appropriate chemicals, and waited the due four minutes to see if dot number two did or didn’t retain it’s pink color.  It did, she was.  A curious pleasure for me, after these many years of resisting placing myself in the realm of fathers.  For her it seems a confusion mixed of happiness, fear, and probably practical calculations as to its interference with her upcoming film work.  A few days later, we drove to Lisboa for a doctor’s appointment (Friday, 25th July).  As if to underline the chaotic nature of our lives the trip up was punctuated with a flat tire, perfectly anticipatable given the banged up ill-kept Polo at hand.  Friendly police, of the same group recently found to have been responsible for beheading a man in Sacavem, gave a hand.  We arrived for the appointment a half hour late, around 8:30.  And waited another 3 hours.  Joana, Teresa’s sister arrived, and while we waited a telephone call came in informing that her seriously ill father was being suddenly transferred to another hospital, for an emergency operation that very moment.  Teresa made plans to go to the hospital immediately after her appointment.  Finally we went in, to a doctor harried with work, who enunciated with less clarity that usual in Portuguese.  Customary questions as to health, last period, and so on, and then an ultra-sound verification: there on a screen, akin to a radar sweep, was a small slightly ovoid shape, and within a tiny pulsating cluster of cells – the heart.  Receiving the list of tests and pills, and advice as to do’s and don’t, we left.  Teresa proceeded to the hospital past mid-night, along with her sister, her friend Serge, to join her mother and brother and uncle along with some others for a long night’s vigil.  She returned early in the morning, the operation having taken 5 hours, supposedly a success.  Alberto’s entire lower intestinal track had been removed.  In the morning I talked with Ze-Pedro, Joana’s estranged husband, saying I thought the probabilities of Alberto dying were higher than seemed acknowledged in the family, commenting along the way that I thought the dramatic closed-circle of seeing the embryo of our child, with Teresa then running off to what could be the end of her father’s life, seemed too pat, too perfect.  One day later, Teresa calls to say that Alberto, supported by machine, having been “doing well” has taken a hard turn for the worse.  I’m sorry, though scarcely surprised, having taken the oblique language of the doctors as intimations that things were moving, step-by-step, towards death, some time ago.  Of course this guarded medical language was gauged to obscure and deflect, as did the family’s talk, though lurking beneath was an obvious sense that things were not really going well.  It’s August 1, and I wait to hear the final word.  Today, tomorrow?  So this small story, seeing a coming child’s tiny beginnings, coupled – slightly syncopated, not quite in perfect symmetry, but in an artistic sense more complex, richer, more oddly beautiful – to Alberto’s dying, seems to come as life’s lessons most often do, at an angle, as with the best of art, elusive, leaving space for intuition, for inward thoughts.  (Alberto died August 14.)

Dressed in sadness, bleak colored, bereft of common smiles.

CLARA RETURNED POST2

DVD of Passages for you in it.

Depois de semanas à espera do período de Teresa, e convencido que estaria grávida, em 15 Julho, fez um teste em casa. Com uma pequena amostra de urina, num pequeno saco de plástico preparado com quimicos, e aguardando o tempo necessário para ver se retia a cor rosa. E ficou rosa, de facto. Um curioso prazer para mim, depois de muitos anos a resistir em colocar-me no reino dos pais. Para ela, um misto de confusão, com felicidade, medo e possivelmente o calculo prático sobre a interferência no seu próximo filme. Uns dias depois, fomos para Lisboa, para uma consulta no médico (6ª, 25 Julho). De maneira a sublinhar a natureza caótica das nossas vidas, a viagem teve um pneu furado, lógico dado o estado em que se encontrava o Polo. Uns policias simpáticos, talvez dos mesmos que foram recentemente responsaveis por degolarem um homem em Sacavem, deram nos uma ajuda. Chegámos à consulta meia-hora depois, cerca das 8:30. E esperámos mais 3 horas. Joana, a irmã de Teresa, chegava, e enquanto nós esperávamos, recebemos uma chamada dando a noticia, de que o pai delas, seriamente doente, iria ser transferido para outro hospital, para uma operação de urgencia, naquela preciso momento. Teresa fez planos para ir para o hospital, logo após a nossa consulta. Fomos atendidos, por um médico assoberbado em trabalho e que mal se percebia o que dizia. As questões habituais – saúde, o ultimo periodo, etc, e depois uma verificação via ultra-sons: então, num ecran, semelhante a uma especie de radar, surgiu uma forma ligeiramente oval, e dentro de um nicho pequenino de células, o coração batia. Recebemos a lista de testes e comprimidos, os conselhos do que fazer, e do que não fazer. Teresa chegou ao hospital passava da meia-noite, juntamente com sua irmã, um amigo, Serge e juntou-se a sua mãe, irmão e tio entre outros, para uma longa vigilia nocturna. Regressou cedo de manhã, enquanto a operação durou 5 horas, supostamente um sucesso. Todo o intestino inferior de Alberto havia sido retirado. De manhã falei com Zé Pedro, o desconfiado marido de Joana, dizendo que pensava que as possibilidade de Alberto morrer eram maiores do que as reconhecidas pela familia, e comentando que o fecho de circulo, em que vimos o embrião da nossa criança, e depois com Teresa a correr para aquilo que poderia ser o fim da vida de seu pai, parecia-me algo estranhamente perfeito. Um dia depois, Teresa disse-me que Alberto, com ventilação assistida, estava pior. Não fiquei muito surpreendido, devo dizer, por notar pela linguagem obliqua dos médicos, que a natural evolução das coisas, passo a passo, levaria apenas à morte, como desfecho unico. É claro que esta linguagem médica é feita para deflectir e obscurecer a visão da familia, apesar de saberem que as coisas, não estavam de facto a correr bem. É 1 Agosto, e espero ouvir a palavra final. Hoje, amanhã? Esta pequena história, onde se vê o começo de uma pequena criança, sincopada, em simetria imperfeita, mas num sentido artistico mais complexo, rico e estranhamente bonito, até à morte de Alberto, parece-me como uma das lições que a vida fornece, e de um ângulo, através do melhor da arte, elusiva, deixando espaço à intuição, aos pensamentos interiores (Alberto morreu a 14 Agosto, 1996)

Vestido em tristeza, com cores sombrias, rodeado de sorrisos banais.

Clara, I will tell you more of this story, Alberto and your grandmother Mirilia, later.

 

PASSAGE STILL greensacile2Passages, a meditation for Clara, 2006

Thanks to Rui Santos of Lisboa for his help in translating.  Muito obrigado, Rui.

[For a note on Clara from earlier, see this, from JonJost.Wordpress]

 

~ by jonjost on September 21, 2009.

2 Responses to “Letter #4 para Clara”

  1. […] https://paginasparaclarinha.wordpress.com/2009/09/21/letter-4-para-clara/ […]

  2. Eh uma pena que os tribunais de Portugal permitem e patrocinam o afastamento de um pai tao cuidadoso, fazendo uso de subterfúgios na lei para privilegiar quem lhes interessa…(eu sei porque estive la e vi as posições preconceituosas dos juízes e ministérios públicos a lidar com os processos) Clara, espero que um dia consigas ver a realidade da falsidade que os tribunais permitiram ser dada como verdade provada.

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