Lettera #6

Large oil painting, after Durer clara1 CCClara in the court of Largo D’Outeirinho do Amendoa, September 1997

Dearest Clara

This teaching term I did 3 classes, each on a different day.  It seems to have shattered my own time, and left me with almost no time.  So I am late in writing this letter for you.  Next term I will return to 2 classes, on Wednesday and Thursday, and I will have more time for myself, and for you.

In a few weeks we will leave for Europe, and on that trip, we will visit Lisboa.  I will have some screenings at the Cinematheque there, on July 7-10.  I would like to think I will be able to see you, but I imagine your mother will make sure you are far away, or if you are in the city, that there is no way to make contact.  I hope it will be otherwise, but I imagine it will not be so.  I will hope though that it is possible – for you, and for me.  I will do what I can to make that possible.

So now to pick up from my last letter, about your life when you were very very little.  In your first summer we were in Lisboa, you with me, and your mother off  first preparing to shoot her film, Os Mutantes, and then to shoot it.  Because of that film, she was away most of the time, but I was always with you.  As I wrote before, I read you some poetry each day, and you came out to our back patio and stayed with me while I painted, often in my arms, near the canvas.  And you sat on my lap or lay beside me while I was editing London Brief.  I was invited with that film to the Yamagata festival in Japan, and in the autumn, after your mother had finished her film, we all went off on a long trip to Japan, taking the train from Tokyo up to Yamagata, which is a small city to the north, and inland.  During the festival the people all were always considerate of you, and they loaned us a baby carriage, and always surrounded us, exclaiming how beautiful and wonderful you were.  And it was true – you were a very good traveler and a beautiful little child, with a wonderful disposition.  After the festival we went to a traditional Japanese hotspring town for some days, and stayed in a ryokan, an old style Japanese inn.  In the film I am editing, Picolli Miracoli, there are images of you there, on the tatami (a Japanese mat on the floor), as well of you in a train, and elsewhere, including in a little Tokyo hotel with a crazy TV show on. Japan is very lovely, but also very strange, at least to we people from the west.

After our trip to Japan we returned to Lisboa, I think in late October, and stayed a little more and then moved to Paris, where your mother had arranged to edit her film.  We had a small, and after our place in the Alfama, rather basic apartment.  It was in Belleville, in the north of Paris, in a neighborhood which had many Arabic people from Algeria and Morocco, and as well many Asians.  It wasn’t really quite like being in French France.  Your mother went every week day to edit, gone early in the morning and usually back late in the evening.  I was with you everyday.  We went to some lovely parks when the weather was nice, and on long walks through the city using a big wheeled carriage I had bought for you in Berlin – something used by joggers I guess.  It was good in a city with cobblestones, and much better than the normal child’s walker.  During this time, which lasted a little more than a year, I shot a film with some young French actors, and on our walks I was shooting for it.  Often in the film your voice is present.  And as well you were with me often when the actors were with me, working.  Again, your voice is there – for me to see the film is to be reminded, something both joyful for me, for I so much loved having you with me, caring for you, and of course saddening too, as I have missed you now almost 10 years.  It is a lovely film, and much of that I know comes from the happiness and joy I felt at the time, something that came from and through you.  We had some friends in Paris – Maria de Madeiros, and her sister Ines, who both also had new young children, and once in a while we would visit them.  Perhaps you still see them, I don’t know.

You had your first birthday in Paris, with of course a little cake and a single candle.  Of course, like all one year old children, you didn’t know what it was all about.  And you began to talk as well, and took your first steps, all as you turned one.  I have some video of these things that will be in Piccoli Miracoli.

Your mother’s film was finished and went to a section in Cannes, and we all went to attend its premier.  There’s video of that as well.  The time in Cannes wasn’t really very nice – your mother was angry with her producer, Jacques Bidou, a Frenchman, and perhaps the stress of being in the big film world did not really work well for her.  I found it all rather silly and awful, and it only underlined for me that I wanted nothing to do with that part of the film business.  We went back to Paris, where we stayed on, though we went to Cabanas in the Algarve for a month in the summer.  If I remember well we spent the autumn in Paris, which was lovely, and your mother went to some festivals with her film – I don’t recall which.  And in winter that year we moved to Roma – mostly because I did not want to live in Lisboa any more.  I think we moved in December, but it might have been January.  By then you were speaking both in English and in Portuguese.  And you were fast on your feet!

So I will end this here, and in the next letter I’ll write about our lives in Rome.

I hope that Lisbon is as lovely as I remember it in spring, with the bougainvillea in bloom, the sky blue and the Tejo glistening in the sun.  And I hope you are happy and able to do the things you want to do.  And I hope perhaps in another month, I might see you.

I love you, Clara

Your father,
Jon

clara11 CCClara in the park of the Royal Palace, Tokyo

clara17 CC

clara15 CCClara in ryokan, a traditional Japanese inn, October 1997

Minha querida Clara

Neste período de aulas estive com 3 turmas, cada uma num dia diferente. Parece ter dilacerado o meu próprio tempo, e deixou-me com quase nenhum tempo. Portanto estou atrasado na escrita que te tinha prometido. No próximo período, regresso a 2 turmas, Quarta-feira e Quinta-feira, e terei mais tempo para mim, e para você.

Em algumas semanas partiremos para a Europa, e nessa viagem, visitaremos Lisboa. Terei algumas exibições na Cinemateca de 7 a 10 de Julho. Gostaria de pensar que seria possível ver-te, mas imagino que tua mãe se assegurará que estejas longe, ou que caso estejas em Lisboa, que não exista modo de contactarmos. Espero que seja de outra maneira, mas imagino que não será assim. Esperarei contudo que seja possível o nosso reencontro, e tudo farei para isso.

Regressando á minha última carta, sobre a sua vida quando ainda eras muito, muito pequenina. No teu primeiro Verão estivemos em Lisboa, tu comigo, enquanto tua mãe preparava o seu primeiro filme, Os Mutantes, e pouco depois iniciava a sua realização. Por causa disso, ela estava longe de ti a maior parte do tempo, mas fiquei sempre contigo, sem problemas. Como escrevi antes, lia-te poesia e tu andavas no nosso pátio, acompanhando-me nas minhas pinturas, perto dos quadros. Sentavas-te ao meu colo ou estavas junto de mim, enquanto editava London Brief. Fui convidado com esse mesmo filme ao festival Yamagata no Japão, e no Outono, depois da tua mãe ter terminado o seu filme, partimos para uma longa viagem ao Japão, apanhando o comboio de Tóquio até Yamagata, que é uma pequena cidade ao norte, e interior. Durante o festival, todos os participantes foram sempre gentis contigo, emprestaram-nos um carrinho de bebé, e sempre a rodearem-nos, exclamando quão bonita e maravilhosa eras. E era verdade – eras uma simpática viajante e uma bela pequena criança, com uma maravilhosa disposição. Depois do festival fomos a uma tradicional cidade termal japonesa durante alguns dias, e ficamos num ryokan, uma velha hospedagem de estilo japonês. No filme que estou editando, Picolli Miracoli, vêem-se imagens tuas lá, no tatami (uma esteira japonesa), no comboio, e num pequeno hotel de Tóquio, a ver tv. O Japão é muito encantador, mas também muito estranho, pelo menos para nós, Ocidentais.

Depois da nossa viagem ao Japão voltámos a Lisboa, penso que em finais de Outubro, e depois de um curto período, mudámo-nos para Paris, onde tua mãe editava o seu filme. Estivemos num pequeno (e depois do nosso lugar em Alfama…) apartamento, bastante básico. Estávamos em Belleville, no norte de Paris, com uma vizinhança repleta de Árabes, da Argélia e de Marrocos, e também muitos Asiáticos. Não era propriamente estar numa França francesa…Tua mãe estava cada dia, fora para editar o filme, saindo muito cedo e regressando bastante tarde. Estava contigo diariamente. Fomos a alguns parques (encantadores) quando o tempo estava bom, e demos longos passeios pela cidade, tu num carrinho muito simpático que eu te tinha comprado em Berlim. Era óptimo para se caminhar numa cidade com empedrado especial, e muito melhor do que os habituais carrinhos de bebés. Durante este tempo, que durou pouco mais de um ano, efectuei um filme com alguns jovens actores franceses, e também para isso aproveitava os nossos passeios. Muitas vezes no filme a tua voz está presente. E também estiveste comigo em muitas das vezes que os actores trabalhavam comigo. Novamente, a tua voz está lá – para mim ver este filme é lembrar algo muito alegre para mim, já que tanto gostei de ter-te comigo, cuidando de ti, mas é também algo que me entristece, pois sinto a tua falta por há 10 anos. É um filme encantador, e a maior parte do qual vem da felicidade e alegria que sentia no momento, algo que surgia por ti e de ti. Tivemos alguns amigos em Paris – Maria de Madeiros, e sua irmã Inês, que tinham também crianças jovens, e que de vez em quando visitávamos. Possivelmente ainda as vês.

Tiveste o teu primeiro aniversário em Paris, com um pequeno bolo e uma vela. Naturalmente, como todas as crianças de um ano, não percebias muito bem o que te rodeava. Começaste a falar, e também a dar os teus primeiros e seguros passos. Tenho imagens destas situações em Piccoli Miracoli.

A tua mãe acabou o filme, foi exibi-lo em Cannes, e todos nós fomos assistir á sua estreia. Aproveitei e também registei em vídeo a situação. A estadia em Cannes, não foi propriamente agradável – a tua mãe estava zangada com o seu produtor, o francês Jacques Bidou, e o stress de estar no mundo dos grandes filmes não funcionou bem para ela. Achei que tudo aquilo era bastante parvo e terrível, e sublinhou a minha vontade em não querer ter nada a ver com aquela parte do negócio. Regressámos a Paris, onde ficámos, embora fôssemos a Cabanas, no Algarve durante um mês no Verão. Se bem me lembro, passámos o Outono em Paris, o que foi encantador, e a tua mãe aproveitou e foi a alguns festivais com o seu filme – não relembro quais. E no Inverno desse ano fomos para Roma – basicamente porque não pretendia ficar mais em Lisboa. Penso que nos mudámos em Dezembro, mas pode ter sido em Janeiro. Até lá já falavas em inglês como no português. E estavas rápida a andar!

Terminarei por agora, e na carta seguinte escreverei sobre as nossas vidas em Roma.

Espero que Lisboa seja tão encantadora como me lembro na Primavera, com as buganvílias em flor, o céu azul e o Tejo a brilhar ao sol. E espero que sejas feliz e capaz de fazer as coisas que pretendes. E espero o mais possível, rever-te em breve.

Amo-te, Clara
O teu pai,
Jon

clara24 CCClara, just learning to walk, Rue D’Orillon, Paris, winter 1998

clara2a CC

clara5 CCClara in Cannes !

Clara at the keyboard, Paris !

clara29 CCClara com pai

Amo-te, Clara

~ by jonjost on June 7, 2010.

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