Lettera #9: Bom Outono, Clarinha !

Paris, summer 2011

Querida Clara

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Espero que tenhas tido um bom Verão – imagino algum tempo em Cabanas, na praia, ou algum em Lisboa. Apenas posso imaginar, pois nada sei de ti desde Agosto 2001.

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Em breve, recomeçarás a escola – penso que talvez ainda no Secundário, pois não estou muito certo do sistema escolar português. Acredito ser um grande passo para ti. Desejo-te bem – estuda muito, aprende o mais que possas, e aprecia os teus amigos.

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Fez agora 10 anos que te vi pela ultima vez, na altura com uma face triste numa esquadra de policia em Trastevere, em Roma, sentada no colo da tua mãe, enquanto ela te dizia coisas desagradáveis. No dia seguinte, ela raptou-te, de forma ilegal, contra as ordens de um tribunal italiano, e levou-te para Lisboa. Desde então nunca mais te vi, e tudo isto tem constituído um desgosto para mim, como julgo para ti. Nos dois anos seguintes, passei a maior parte do tempo tentando fazer-te regressar a tua casa – mas a tua mãe e o sistema judicial português, demasiado corrupto, evitaram que tal sucedesse. Escrevi, publicamente, acerca dessa mesma corrupção – na altura um autêntico tabú, algo do qual não se podia falar – e enviei cartas para os jornais e para os tribunais e até ao Presidente da República de então, Jorge Sampaio. Apenas me respondiam que nada era corrupto e que deveria permanecer calado. Desde essa altura, tudo mudou, e todos concordam com esse diagnóstico no Governo, o sistema é corrupto. Todo ele. Incluindo a parte em que a tua mãe recebe dinheiro para os seus filmes. E tu, foste apanhada no meio disto, uma vitima do sistema legal corrupto do teu próprio país e do egoísmo e psicologia da tua mãe. Lamento profundamente que apesar de todos os meus esforços, nada tenha conseguido mudar. Foi e é uma tragédia para ti, e para mim.

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Não sei se faças e lês Inglês. Acredito ser normal que alguém como tu – que falava bem Inglês e Italiano com 3 anos e meio – e com a posição proveligiada da tua mãe – continue a aprender Inglês na escola. E apesar de me ter sido, há muito tempo, em 2001, que estavas em aulas de Inglês, quando te vi nesse Verão, quase que tinhas esquecido a língua. Julgo teres sido retirada dessas aulas, e provavelmente de forma deliberada continuaste a ser afastada, para te impedirem de saber a língua do teu pai. Não sei, como nada quase sei acerca de ti, mas como te vi nesse Verão de 2001, quase que mal falavas Inglês (apesar de te teres lembrado rapidamente), e como também consigo imaginar, suponho que te disseram para nunca mais falares tal língua. Se tal sucedeu, é muito triste para ti – dificultará a nossa comunicação, mas também porque presentemente o Inglês é mais ou menos a chamada “língua universal” – algo que auxilia a maior parte das pessoas num mundo globalizado. Espero de facto estar errado e que tenhas aprendido todo este tempo.

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Este Verão estive na Europa, e algumas coisas importantes aconteceram. Marcella – que espero possas ver um destes dias – decidiu que deveria seguir por si mesma, e eu concordo que necessitava de tal mudança na sua vida. Tem 34 anos, e precisa de ver e conhecer o mundo. Somos agora bons amigos, mas não vivemos juntos.

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Vou agora para Seoul, na Coreia Sul, e espero aí filmar um novo filme com um coreógrafa local, Eun-me Ahn, e depois em Novembro ou Março 2012, conto ir a alguns festivais – um no Japão, Yamagata, onde estivemos os dois em 1997, tinhas tu 6 meses apenas. Aguardo noticias de outros festivais, e de novos filmes. No próximo ano, 2012, irei para os Estados Unidos onde conto iniciar uma longa jornada para rever amigos e família, e talvez filmar um ou mais filmes.

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Escreverei novamente em breve, contando-te mais factos verdadeiros sobre a tua vida e a tua família.

Amo-te, teu pai

jon

Cabanas, 1997

Dearest Clara

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I hope you had a good summer – I imagine some time in Cabanas on the beach, some in Lisboa. I can only imagine as I have heard nothing, as has been so since August of 2001.

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Soon you will begin school for the year – I think High School now, though I am not so sure of the Portuguese school system.   For you a big step.  As is each year.  I wish you well – study hard, learn a lot, enjoy your friends.

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It is now just 10 years since I last saw you, there with a sad face in a police station in Trastevere, in Rome, sitting on your mother’s lap as she said hard things to you.  The next day she kidnapped you, illegally, again, against an Italian court order, and took you to Lisboa.  I have never seen you since, and it has been a sorrow for me all that time, as I know it has been for you.  In the two years after that I spent all my time trying to return you to your home and to see you – but both your mother and the legal system of Portugal, utterly corrupt, prevented that.  I wrote, publically, about that corruption – at the time a taboo, something which one was told could not be said – and sent letters to newspapers and the Judiciary and even to the President of Portugal at that time, Jorges Sampaio.  They only wrote to say that nothing was corrupt, and that I should be silent.  Since then everything changed, and everyone agrees the government, the system, is corrupt. All of it.  Including the part where your mother gets the money for her films.  And you were caught within it, a victim of your own country’s corrupt legal system and of your mother’s selfish and damaged psychology.  It is my deepest sorrow that despite my efforts I could not change that.  It was a tragedy for you, and for me.

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I do not know if you still speak and now read English.  It would be normal for someone such as you – who did speak English well (and Italian) when 3 and a half years old – and with your mother’s privileged position – to continue to learn English in school.  And while I was told, long ago in 2001 that you were in English classes, when I saw you in that summer, you almost had forgotten how to speak English.  My guess is that you were taken from such classes, and probably were deliberately kept from continuing, in order to keep you from speaking your father’s language.  I don’t know – as I know almost nothing about you – but what I saw in summer of 2001 when you hardly spoke English anymore (though you quickly remembered), and as I can imagine, I suppose you were in effect taught not to speak English any more.  If it is so, it is sad for you – not only that it makes it difficult for you to speak with your father, but that in the present world English is more or less the “universal” language – something which helps most people out in the bigger world.  I hope I am wrong, and that you have been learning English all this time.

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This summer I spent in Europe, and with some important things changed.  Marcella – who I hope you will meet some day – decided she should go off on her own, and I agree she needs that for her own life. She is 34 years old, and needs to experience the world on her own.  We now are good friends, but we do not live together.

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I go now to Seoul, in Korea, hopefully to shoot a new film with a choreographer there, Eun-me Ahn, later in November to March, 2012, and go to some festivals – one in Japan, Yamagata, where you went with me in 1997, when you were only 6 months old.   I await news from other festivals as well – with new films.  And next year, 2012, I will go to America to take a long journey to see friends and family, and to shoot a film or perhaps several.

I will write again, sooner, and begin to tell you some of the true things of your own life and family.

Amo-te, teu pai

jon

Your father, shooting a film in 1967

~ by jonjost on September 1, 2011.

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