Lettera #10: Yamagata

Large ceramic plate in shop window, Yamagata (detail)Temple bell, detail

10/15/2011

Querida Clara

Na passada semana estive em Yamagata, no Japão, e agora estou num “resort” perto de Fukushima, onde o grande terramoto e tsunami do 11 Março afectou uma central nuclear – nos próximos dias conto ir ver in loco os danos. Também durante toda a semana pensei muito em ti. Em parte, porque há 14 anos, quando tinhas apenas 6 meses de idade, nós – em conjunto com a tua mãe – estivemos também em Yamagata. E estivemos depois num local parecido, mais bonito, confesso do que onde estou agora.

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Estive a exibir um filme, que de determinada forma, me auxiliaste a fazer – sentavas-te ou brincavas a meu lado, com apenas meses de idade, enquanto eu editava o filme, em Lisboa, fazendo-me uma pessoa muito feliz. O filme era London Brief. E em parte, penso em ti, devido também ao filme que mostrei este ano, Imagens de uma cidade perdida, que foi feito no ano em que te preparavas para nascer. É um retrato de uma parte da velha Lisboa, de Alfama, onde moraste pela primeira vez, Largo Outeirinho de Amêndoa, e nas áreas adjacentes – Graça, Castelo, e também o Bairro Alto. Como vês, é dificil não pensar em ti com todas estas recordações. É-te dedicado este filme. Passam agora 10 anos desde que te vi ou ouvi pela ultima vez. Têm sido para mim, e creio, estou certo, também para ti, 10 anos de perda e sofrimento. Por isso, querida Clara, arrependo-me imensamente, apesar de pouco ou nada poder ter feito para evitar tal. Sobre isso, deves questionar a tua mãe.

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Acredito que irás agora começar a Faculdade. Espero que te corra bem, que estudes, mas que também te divirtas. Espero que estudes Inglês (bem como outras línguas) e que possas fazer o que te propões, o que quer que sejas. E espero que de alguma forma, em breve, nos possamos ver como deveria ter sucedido nos ultimos dez anos.

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Na próxima semana retorno a Seul, para filmar sobre um coreógrafo local, que está a desenvolver um novo trabalho. E para encontrar tempo para editar um outro filme sobre ti. Chama-se Piccoli Miracoli, Pequeno Milagre. Aparareces nele com três anos e meio. Talvez daqui a 2 anos regresse a Yamagata (o festival é a cada 2 anos). Talvez nessa altura possas vir comigo! Será um sonho!

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Estas coisas ocupam-me durante uns meses, e então talvez regresse ao Japão. Ou aos Estados Unidos. Tudo é actualmente inseguro, dado já não ser Professor e estar livre. Se te pudesse ver, iria a Lisboa, ou viveria mesmo aí, por ti.

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É agora Outuno aqui, e Lisboa deve estar linda. Como tu.

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Amo-te, Clarinha.
teu pai
jon


Clara in Japan, at six months,  October 1997

Dearest Clara

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The last week I have been in Yamagata, Japan, and now I am at a hot spring resort near Fukushima, where the big earthquake and tsunami of March 11 damaged a nuclear power station – the next days I will go to see some of the terrible damage. During the week I thought and felt much about you. In part because 14 years ago, when you were 6 months old, we – along with your mother – were in Yamagata together. And we also went to a hot spring after (a nicer one than the one I am at now.) I was showing a film which in a way you helped me to make – you sat or played beside me, when you were only months old, as I edited in Lisbon, making me a very happy person. The film was London Brief. And in part I thought of you because the film I showed this year, Imagens de uma cidade perdida, was made in the year you were getting ready to come into this world. It is a portrait of a kind of the older Lisboa of the Alfama, where your first home briefly was, on  Largo Outeirinho da Amêndoa, and the areas around it – Graca, Castelo, and also Bairro Alto and other places. It is dedicated to you.  So it was hard to not think of you. It has been now a little over 10 years since I last saw you or heard you. It has been, for me, and I am sure for you, 10 years of loss and pain. For that, dear Clara, I am sorry beyond measure, though neither of us had much hand in it. About that, you must ask your mother.

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I think you must have begun high-school now. I hope it goes well for you, and that you study hard – but also have fun. I hope you are studying English (and some other language as well) and that you are able to do the things you want to do, whatever it is. And I hope that somehow, sometime soon, we are able to see each other as we should have the last ten years.

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In a week I will return to Seoul, to shoot a film on a choreographer there, who is developing a new work. And to try to find the time to edit another film, one about you. It is called Picolli Miracoli, Pequino Milagre. It will show your first 3 and a half years. Perhaps in two years I will return to Yamagata with it (the festival is every 2 years.) Perhaps you might come with me! That would be a dream!

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These things will keep me busy some months, and then perhaps I will come again to Japan. Or to the United States. Everything is unsure now that I am no longer a Professor and am free. If I could see you I would come to Lisboa or even live there, for you.

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Autumn is now here, and in Lisboa it should be beautiful. Just like you.

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Amo-te, Clarinha

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teu pai

jon


Outside a door in Yamagata

~ by jonjost on October 18, 2011.

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