Lettera # 11 : Feliz Natal, Clarinha !

Querida Clara

É época de Natal, e assim sendo, suponho que tenhas férias de Natal, preparando-te para algumas festas, recebendo e dando presentes. Espero que tenhas um tempo óptimo e desejo-te um grande Ano Novo. FELIZ 2012!

Vou contar-te um pouco sobre a minha família – e depois, algumas coisas sobre o teu lado materno. Começo pelo teu avô, o meu pai, que ainda está vivo. Tem 97 anos. Apesar de, certa maneira, não estar propriamente vivo, pois está acamado há muitos anos, perdido na doença de Alzheimer. É assim mantido, apesar de ter indicado que gostaria  que procedessem em contrário. Não o vejo há 26 anos, e mesmo antes, raramente sabia dele, pois saí de casa aos 17 anos. Não gostava dele. Mas auxiliou-me a conhecê-lo um pouco melhor.

Your grandfather Harry, on the far right; I am the little boy 2nd from the left, then my sister Jolly, my mother’s father, my mother Dorothy; in front the little boy is my cousin David, and my brother, Peter; the woman on the left is my aunt Vivien Around 1946.

Chama-se Harry Frederick Jost, oriundo de descendência alemã. Creio que o seu pai emigrou para a América, não sabendo com precisão as datas, talvez nas décadas 80 ou 90 do sec. XIX. O meu pai foi criado Downer’s Grove, Illinois, agora um subúrbio de Chicago. Em jovem, creio que foi bastante popular, herói de futebol americano no liceu e cantor.  Também tocava saxofone. Os meus pais conheceram-se na escola, bastante novos – 19, e tinham contra si as “vontades” familiares, e tiveram precocemente uma criança, o meu irmão Richard. Pouco depois, o meu pai tornou-se cantor profissional na zona de Chicago, trabalhando com as “Big Bands” e viajando pelo “midwest” em várias tournées. Usava um nome de palco, “Gary Temple”. Isto foi durante a Grande Depressão dos anos 30, quando a economia mundial colapsou e muitos, ficaram muito, muito pobres. Julgo que algo semelhante estará a desenhar-se agora – sendo dificil adivinhar-se quais os desenvolvimentos nos anos mais próximos.

Quando a II Guerra Mundial eclodiu, o meu pai relutantemente juntou-se aos militares, já com 30 anos. Foi para a Escola de Treino de Oficiais e treinou para paraquedista. Demasiado “gung ho”, como se diz – alistou-se demasiadamente depressa, apesar do treino o ter feito perder alguma da Guerra por algum tempo. Esteve em França assim que a Guerra terminou na Europa. Quando regressou a casa, havia uma família com três crianças – o meu irmão mais velho, Richard, dez anos mais velho que eu e ainda vivo, a minha irmã Jolly, quase dois anos mais velha e eu, na altura com três.

Vivemos em bases militares na América – Fort Benning, Georgia, e Fort Leavenworth, Kansas. E viajámos por esse mundo: 3 anos no Japão, quando eu era uma criança pequena; depois novamente para a América, e depois um ano em Trieste, Itália, e Augsburg na Alemanha por dois anos. Depois voltámos aos Estados Unidos, onde o meu pai trabalhava no Pentágono. No final dos anos 50, enquanto eu acabava o Liceu, ele estava um ano na Coreia, onde agora me encontro. Aquando do seu regresso, esteve em Nova York e depois Havai. Era oficial no Exército, responsável pelo “Pessoal” no Vietname – o que significa que decidia, quem vai ou não à Guerra. Ser militar é fazer parte de algo estranho. Para se avançar na hierarquia, ajuda ter estado numa guerra, e apesar dele ter “tentado” entrar numa, nunca conseguiu de facto. Estávamos em Itália quando pensou que aí se daria um conflito, o que não sucedeu aí, mas sim, na mesma época, noutro canto do mundo, na Coreia.

Na altura do Vietname estava já com demasiada idade para combater, logo passou a tarefas administrativas. Quando se retirou do Exército, passou a ser um ferveroso Fundamentalista Cristão. Pelo que parece é tudo com o que se preocupa, espalhando a mensagem por quem esteja junto dele. Quando a minha mãe morreu, 26 anos atrás, viviam na Florida, para onde se tinham mudado, pois a minha mãe pretendia viver mais perto da minha irmã e sua família. Assim que a mãe morreu, ele saiu, retornando ao Havai. Contaram-me que no ano seguinte propõs-se a 5 mulheres diferentes, e que uma – casada na altura, e também uma Fundamentalista Cristã, que acreditava ser pecado casar-se de uma pessoa divorciada – divorciou-se, para assim casar com ele. Nunca a conheci, apesar de lhe escrever de quando em quando.

Desde muito novo, nunca gostei do meu pai, e por muito tempo após sair de casa, confesso não perceber muito bem o porquê. Sabia algumas coisas – o meu pai sempre pensou ter razão em tudo, e sempre pensou saber o que era adequado para todos, para mim, a minha mãe, a minha irmã ou o meu irmão. E que tudo faria para nos obrigar a fazer o que ele pretendesse. Acredito que ele educou e formou a família como havia também sido formado e criado. Desde muito novo – talvez com 8 ou 9 anos, aprendi a desempenhar uma espécie de teatro, que interiormente me levava a querer escapar a tudo isto. Acredito que teria dez anos quando disse aos meus pais que não iria para o Exército. Riram-se e pensaram que estaria a brincar. Mas obviamente que iria, todos iam. O meu pai não me acreditou até eu estar detido por recusa em entrar para as Forças Armadas. Algumas décadas depois de sair de casa, através do meu irmão, e de obrigar o meu pai a admiti-lo, descobri que quando era bastante novo, era espancado quase diariamente por ele. Crescendo em bases militares aprendi a habitual linguagem de caserna, o que na altura não era tão criticável quanto hoje. Utilizava tal linguagem em casa, a minha mãe informava o meu pai, e após o jantar, era convenientemente castigado. Não me recordo de nada disto, mas também não me recordo de quase nada da minha infância. Creio que ao eliminar as memórias dos espancamentos, também apaguei as restantes.

My father, your grandfather, at 97, in Hawaii

O meu pai era um homem elegante, que envelheceu lentamente, permanecendo assim elegante já com 70 anos. De compleição atlética, e já com 97, creio que tem uma boa fundação genética. É também uma pessoa hipercrítica, que infligiu danos em todos á sua volta – minha mãe, irmão, irmã e eu. Sei ainda de outros que também por isso sofreram. Tentou-se divorciar da minha mãe umas duas vezes (ou mais – o que é um pequeno segredo familiar), e fez a sua vida particularmente miserável. Quando esteve na Coreia, teve durante 1 ano um caso romântico com uma mulher. Quando chegou a casa, saudou-nos alcoolizado do avião. Como já disse, saí tão cedo quanto possível, com 17 anos, e vi-o o menos possível desde então. Acredito que nunca percebeu o porquê dessa decisão. Na sua mente, esteve sempre certo, e se eu (ou outra pessoa) não concordasse com ele, seria nossa a responsabilidade e culpa, e seríamos nós a estarmos errados.

Mais coisas te poderia contar acerca dele. Um dia farei tal. Por agora, creio que do lado positivo, talvez lher possas agradecer pelos talentos musicais que tenhas – parece-me que tens alguns (adoraria ouvi-los). E talvez pelas capacidades atléticas e boa saúde. Podemos ambos agradecer-lhe por isso. Por outro lado, podemos agradecer-lhe por nos ensinar a como não viver uma vida, pois providenciou-nos tal exemplo.

Em carta futura, contarei o que sei do teu avô, Alberto, que morreu 6 meses antes de tu nasceres. E da minha mãe.

Desejo-te um Feliz Natal, Clara, e espero que um dia, nos encontremos. Têm sido 11 anos muito longos. Como sabes.

Amo-te
Teu Pai

Note: Harry Frederick Jost died in Honolulu on December 28, 2011.

Dearest Clara
It is Christmas time and I suppose you are out of school, readying for some parties, giving and getting some gifts.  I hope you have a wonderful time, and next, a great New Year –  Parabens for 2012 !

I will begin here to tell you a little about your family – the one from my side, and later, some things of the one from your mother’s side.  I begin with your grandfather, my father, who is still alive.  He’s 97.  Though in a way he’s not really alive – he lays, now for some years, in a bed, lost in Alzheimer’s disease.  He is kept alive even though apparently he has indicated he would like to go.  I haven’t seen him now for 26 years, and before that I hardly ever saw him since I left home at the age of 17.  I did not like him.  But it helps to know a little of him.

His name was Harry Frederick Jost, which tells that he came from a Germanic background.  I think his father emigrated to America from Germany, though I don’t know when – 1800 and something 80’s, 90’s.  My father was raised in Downer’s Grove, Illinois, now a suburb of Chicago.  When young I guess he was a popular man, high school football hero, and singer. He also played saxaphone. He and my mother met in highschool and at a young age – 19, ran away against family wishes, and perhaps too early they had a child, my brother Richard.  Harry became a professional singer in the Chicago area, working with big bands, and traveling to do shows in the mid-west.  He had a stage name, Gary Temple.  That was during the Great Depression of the 1930’s, when the world’s economy had come almost to a halt, and many were very very poor.  Perhaps something like it is beginning now – hard to tell how bad it might be in the coming years.

When World War Two came, reluctantly my father joined the military at a slightly late age – 30.  He went to Officer’s Training School and then to train as a paratrooper.  Very “gung ho” as we say – meaning he jumped in very aggressively to being military, though the extra training made him miss being in the war by a few months.  He was stationed in France right after the war ended in Europe.  When he returned home he had a full family with three childen – my older brother Richard, 10 years older than me and still living; my sister Jolly, almost 2 years older than me, and there was me, around 3 at the time.

We lived on military bases in America – Fort Benning Georgia, and Fort Leavenworth Kansas. And traveled some of the world: 3 years in Japan when I was a small child; then back in America, and then to Trieste Italy one year, and Augsburg Germany for two years.  And then we moved back to America where my father worked in the Pentagon.  At the end of the 1950’s as I was finishing High School he was stationed for a year in Korea, where I am now.   When he returned he was based in New York City, and then in Hawaii.  He was an officer in the army, responsible for “personnel” in Vietnam – which means he decided at the officer level who did or didn’t go there.  The military is a strange thing, and to advance in it, it helps to have been in a war, and though my father tried to get himself into one, he never managed: we were in Italy where he thought there would be a war, and there almost was, but instead there was one half-way around the world, in Korea.  By the time of Vietnam he was in a way too old to go for combat, so he did administrative work instead.  When he retired from the military, he became a very fervent “Jesus freak” – a fundamentalist Christian.  It was, it seemed, all he cared about, and he was always trying to press it on anyone around him.  When my mother died, 26 years ago, they were living in Florida, where they had moved as my mother wanted to be near to my sister and her family.  As soon as my mother was dead, he left, and returned to Hawaii.  I was told that in the one year after my mother died he asked 5 different women to marry him, and one – who was married at the time, and also a fundamentalist Christian like him, who believed it was sinful to marry a divorced person – got divorced and did marry him.  I have never met her, though I get and send an occasional letter.

From very early on I did not like my father, and for a long time after I left my home I didn’t really know why.  I knew some things – that my father always thought he was right, and thought he knew what was right for anyone else – me, my mother, my sister or brother.  And that he would try to force you to do what he wanted.  I suspect he raised his family as he had been raised.  Very early in my life – perhaps at the age of 8 or 9, I learned to play a kind of theater, and appear to go along, but inwardly I only wanted to escape.  I think when I was around ten I told my parents I would not go in the military.  They laughed and thought it was a childish joke.  But of course I would go – every one did.   My father did not believe me until I went to prison rather than in the military.

A few decades after I left home I found out, through my brother, and by forcing my father to admit it, that when I was very young I was whipped or spanked by my father almost everyday.  Growing up on military bases I had learned “bad language” which back then was not so common as it is today.  And I used this at home, and my mother would report this to my father, and after dinner I would be “punished.”  I don’t remember any of this, but also I almost don’t remember anything of my childhood.  I think in erasing those bad memories of being whipped, all the other memories were also erased.

My father was a handsome man, and he aged slowly, staying handsome into his 70’s.  He was athletic, and living to 97, I suppose he has good a genetic foundation.  And he was a completely hypocritical person, who inflicted damage on many around him – my mother, my brother and sister, and me.  I know of others also damaged.  He tried to divorce my mother a few times (or more – it is a family dirty secret), and made her life rather miserable.   While he was on his “hardship tour” in Korea he carried on a year long affair with a woman there.  When he returned home, he greeted us drunk off the airplane.

As I said, I left as soon as I could, at age 17, and saw him as little as possible after that.  I don’t suppose he ever understood why.  In his mind he was always right, and if I (or anyone else) didn’t agree with him, it was their fault, and they were wrong.

There are more things I could tell of him, and someday I will.  For now on the plus side you can perhaps thank him in part for whatever musical talents you may have – seems you have them (I would love to hear some).  And perhaps also for athletic abilities and good health.  We can both thank him for that.   In another way, we can thank him for giving a good lesson in how not to live a life, as he provided an example.

In a later letter I will tell you what I know of your other grandfather, Alberto, who died 6 months before you were born.  And of my mother.

I wish you a wonderful Christmas, Clara, and I hope one day soon, we will meet.  It has been 11 years too long.  As you know.

Amo-te
teu pai

FELIZ NATAL & BOM ANO, CLARINHA !

(The paintings are from your father.)

~ by jonjost on December 24, 2011.

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