Uma lettera para Clara, (Berlin)

1392564_764398736907925_1424696562_n

 

Querida Clara
Tenho esta carta prometida há meses-masviagens, que parecem quase constante, têm-me deixado pouco tempo. Aqui em Berlim, finalmente tenho tal tempo.

.
Tens agora 17 anos e alguns meses. Quase uma adulta. É o momento de saberes algumas coisas sobre a tua família – teu pai.  Imagino que desde que saíram da nossa casa em Roma – quando fos te sequestrada por tua mãe– e se ela não mudou radicalmente de personalidade, que, nunca tenhas ouvido falar a meu respeito.  Eu estaria “eliminado”, tanto quanto lhe dizia respeito, da sua vidae dos seus.

.
Quando morávamos juntos, vi-afazer isso com outras pessoas-amigos de longa data que se de alguma forma diferiam com ela em algo, eram simplesmente cortados da sua existência.  Claro que é possível ela ter dito algo a meu respeito, mas duvido.  Se o fez, assumo que apenas possa ter dito coisas erróneas, falsas, e nada mais.  Mas duvido – a maneira mais provável dela fazer as coisas é “fazer-me desaparecer”.  Mas, como bem sabes, existo, enunca me fui embora, fui agressivamente afastado por Teresa, com a cooperação do sistema judicial de Portugal.

.
Entendo assim, que deves saber a história a respeito de mim e de Teresa, que é afinal de contas, a história de como vieste a existir. Vou-te assim contar a “nossa” história.

.
Conhecemo-nos num pequeno festival em Dunquerque, na costa noroesteda França, em 1991, onde ela estava com o seu primeiro filme O Idade Maior. Eu acompanhava a minha 12ª longa-metragem, Todos os Vermeers em Nova Iorque. Ela tinha 25 anos e eu 48. Num jantar para todos os cineastas ficámos perto um do outro – sendo que mais tarde me disse que no início não gostava de mim – mas ao longo do jantar, ela mudou de ideias.  Eu, honestamente não me lembro de reparar nela.

.
Na época, ela morava com Vasco Pimentel, teu amigo no Facebook, e que eu conheci alguns anos antes, quando em Portugal filmava algo sobre Raul Ruiz. Não me lembrose na altura eu vivia com alguém, embora logo depois tenha tido um relacionamento com uma mulher em San Francisco.  Após o jantar, Teresa falou comigo, e começou o que acabaria por ser muito mais do que dois anos em busca de mim.  Em retrospectiva, devo dizer que foi bastante obsessiva.

.
No ano seguinte, depois de nosso encontro em Dunquerque, Teresa contatou-me, por uma razão ou outra, um sem número de vezes. Em 1992, quando eu estava hospedado em Berlim por um curto período, visitou-me supostamente para saber se eu estaria disposto a fazera câmera em seu próximo filme, Três Irmãos.  Ela fico uno mesmo lugar que eu, o atelier deum escultor nazi no qual eu permanecia através de uma fundação de arte.  Na altura, “não fizemos nada,”  e ao sair, disse-me, falando para si mesma: “Que estúpida que sou.”  Não sabia na épocao que isso significava. Irei noutra altura, enviar-te algo que escrevina época sobre tudo isso. Após esta visita, Teresa escreveu-me umacarta, explicando-me o que ela queria dizer: “que me amava”. E que se sentia estúpida por não ter dito tal em Berlim.

.
Mais tarde, visitei Lisboa, para fazer uma filmagem, e estava com Wendy, a mulher com quem eu vivia na época.  Teresa fez-se muito presente, e se bem me lembro emprestou-nos o seu automóvel (ou seria do Vasco?).  Na época, apenas parecia pretender auxiliar e ser, mas mais uma vezao olhar para trás, parece mais do que “focada.”

.
Então, mudei-me para Roma, em 1993, tendo no meu aniversário de 50 anos decidido que se não fizesse as coisas que queria fazer-e eu tinha muita vontade deviver em Roma – iria morrer a pensar nisso.  Vivendo na Europa, Teresa contactou-me mais, e em algum momento da primavera de 1993, ela urgentemente pediu-me para ira Lisboa, para vê-la enquanto filmava Três Irmãos.  Ela era tão insistente que eu sucumbi, e fui vê-la.  Quando cheguei, encontrámo-nos algumas horas depois das filmagens, perto da estátua de Pessoa, no Chiado.  Quando se aproximou de mim na rua, viu-me “atarracado” e pouco atraente.  Mas, ainda assim, fomos para o Hotel Borges e fizemos amor pela primeira vez.

.
Ela ainda morava com o Vasco, e parecia gostar deprovocá-lo, tendo-me perto.  Fez-me desconfortável.  Minha memóriaé um pouco nebulosa, mas acho que fiquei uma semana ou assim, e depois voltei para Roma, onde Teresa em novo contacto telefónico, implora-me que regresse a Lisboa.

.
Fiz isso em Junho ou Julho, depois dela terminar a rodagem do filme, e passámos a maior parte do Verão juntos, no final do qual decidimos que o relacionamento não estava a “funcionar,” tendo eu voltado a Roma.

.
Lá encontreio dinheiro para fazer um filme, e também encontrei uma nova namorada. Na primavera seguinte, em 1994, quando ela terminou seu filme, depois de estar em constante contato comigo por mais de 6 meses, pediu-me de novo para ir a Lisboa.  Tinha acabado de filmar o meu filme e fui para Lisboa, e fiquei-tendo dito à minha namorada de antemão que isso poderia acontecer. Foi então que começámos a viver juntos.

.
Contarei a próxima fase desta história noutra carta. Mais tarde, espero que em privado, mostrararei algumas coisas que escrevien tão. Olhando para trás, vejo que a obsessão com um só objetivo que a tua mãe demonstrou então, era um sinal, não de amor, mas, talvez, de um desequilíbrio psicológico/mental. Como escrevina quela época, já tinha notado algo assim, mas não prestei atenção suficiente. Se tivesse sido mais sábio, poderia ter-me afastado, mas o coração é um instrumento imprudente e pouco dado a sabedoria.  Por outro lado, se tivesse recusado as pressões da tua mãe, não estarias aqui. Eeu sou – por mais dor que nos tenha sido imposta aos dois  – extremamente feliz por existires.

Mais na próxima carta.

Amo-te, Clarinha, e tem um Verão maravilhoso.

Teu pai,
Jon

4095383758_a8bda114ccIn other days (1995-6)

 

Dear Clara
I have been promising a letter for months – but travels, which seem almost constant, seem to leave little time. But, here in Berlin I will make time.

.

You are now 17, and some months. A young adult almost. And it is time you knew some things about your family – including your father. I imagine that since you were taken from our home in Rome – “kidnapped” by your mother – if she has not radically changed her personality, that within the house you simply never heard of me. I was just erased, so far as she was concerned, from her life and yours. When we lived together I saw her do this with other people – long time friends who somehow differed with her about something were simply cut from her life. Of course it is possible she spoke of me, though I doubt it. If she did then I’d have to assume she had bad things to say and nothing else. But somehow I doubt it – her way of doing things would most likely simply be to make me disappear. But, as you well know, I do exist, and never went away: I was aggressively kept away by Teresa with the cooperation of the juvenile court system of Portugal.

.
So I think you should know about Teresa and I, which, after all, is how you came to exist. So I will tell you “our” story.

.
We met at a small festival in Dunquerque, on the northwest coast of France, in 1991. She was there with her first film O Idade Maior; I was with my 12th long film, All the Vermeers in New York. She was 25 and I was 48. At a dinner for the filmmakers we sat not quite opposite each other at a long table, and she told me later that at first she did not like me, but over the dinner she changed her mind. I honestly don’t recall noticing her at all. At the time she was living with Vasco Pimental, your friend on Facebook, and in life, and whom I had met some years before when in Portugal filming something about Raul Ruiz. I don’t remember if I was living with someone at the time though shortly after I did have a relationship with a woman in San Francisco.

.
After the dinner Teresa talked with me, and began what turned out to be a more than two year long pursuit of me. I would, in hindsight, have to say it was rather obsessive. In the following year , after our meeting in Dunkerque, Teresa contacted me, for one reason or another, a number of times. Inn 1992, when I was staying in Berlin for a short while, she came to visit, supposedly to inquire if I would be willing to do the camera on her next film, Tres Irmaos. She stayed in the same place I did, the studio of a long ago Nazi sculptor I was living in through an art foundation. We didn’t then “do anything” and as she left she said to me, speaking of herself, “How stupid I am.” I didn’t at the time know what it meant. I will, some other time, send you something I wrote back then about all of this. After this visit, your mother wrote me a letter, and explained what she meant: she wrote that she “loved me.” She felt she was stupid because she hadn’t said so in Berlin.

.
Later I visited Lisbon, to do a screening, I think, and was with Wendy, the woman I was living with at the time. Teresa made herself very present, and as I recall loaned us her car (or was it Vasco’s?). At the time it merely seemed helpful and generous, but again in looking back, it appears more focused. I then moved to Rome, in 1993, having on my 50th birthday decided if I didn’t do the things I wanted to do – and I had long wanted to live in Rome – I would die without having done them. Living in Europe, Teresa contacted me more, and sometime in the spring of 1993, she urgently asked me to go to Lisbon, to see her while she was shooting Tres Irmaos. She was so insistent that I succumbed, and went to see her. When I arrived, she met me a few hours late after her shooting, near the bronze of Pessoa in the Chiado. As she approached in the street she looked to me “dumpy” and unattractive. But still we went to the Borges Hotel there and made love for the first time. She was still living with Vasco, and seemed to enjoy taunting him by having me there. It made me uncomfortable. My memory is a bit foggy, but I think I stayed a week or so, and then returned to Rome, where Teresa called me again and again, begging me to return to Lisboa. I did later in June or July, after she had finished shooting the film, and we spent most of the summer together, at the end of which we decided the relationship wasn’t “working” and I returned to Rome. There I found the money to shoot a film, and also found a new girlfriend. The next spring, in 1994, as she finished her film, after being in constant contact with me for more than 6 months, she begged me to go to Lisbon. I had finished shooting my film and I did go to Lisbon, and I stayed – having told my girlfriend in advance that it could happen. It was then we began to live together.

.
I will tell you the next phase in another letter. Later, hopefully in private, I will show you some things I wrote then. Looking back, I can see that the single-minded obsessiveness which your mother demonstrated then was a sign, not of love, but perhaps of a psychological/mental imbalance. In what I wrote at that time, I had already noted something like that, but I discounted it. Had I been wiser I might have turned away, but the heart is a reckless instrument and is little given to wisdom. On the other hand, had I turned down your mother’s pressures, you would not be here. And I am – however much pain it has imposed on both of us – glad you exist.

.
More in the next letter.

.
Amo-te, Clarinha, and have a wonderful summer.

Teu pai,
jon

 

 

For some other thoughts on these times, see this blog post written in 2011:

http://cinemaelectronica.wordpress.com/2011/01/09/festivities-in-rotterdam/

 

 

 

autoresjonjost476

clara

35ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/São Paulo InternTeresa in Venice with Agua e Sal, in which you played a kidnapped child1012244_693226637358469_1565378008_nAmo-te, Clarinha!

~ by jonjost on June 20, 2014.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: